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CORAÇÃO DE MANTEIGA
Não consigo ver minha pequena
dançando no palco da escolinha
que a mesma lágrima do ano passado
retorna insistente como se novidade fosse
No dia dos pais, ganhei um presentinho
desses padronizados que as aluninhas
preparam para a data
e a mesma lágrima vem ofuscar- me
a realidade
Meu garotão, que outro dia ouvia rap
veio me pedir para ensiná-lo a tocar João Gilberto
Onde foi que esse garoto ouviu falar em João Gilberto ?!
Atrás da porta, percebendo os primeiros acordes dissonantes:
a mesma lágrima, de novo.
O casal vizinho, teve um lindo bebezinho
Pronto, foi só pegá-la ao colo e veio a vontade da lágrima -
que, sem poder sair, "o que iriam pensar",
mandei direto pra o peito esquentar.
O cãozinho velhinho e doente, sem dono, na rua.
O menino de olhar triste, sem pais, na rua.
Os desvalidos, sem pátria, na rua.
A velhinha catadora, sem rumo, na rua.
O doente, indefeso nas mãos frias da tecnologia médica,
sem remédio, na cama.
A mulher sem amor, sem família, na rua.
A mulher subjugada, ali, caçada.
O torcedor fanático, sem consciência, no estádio.
O pobre diabo, sem inferno, na linha de montagem.
O pai sem grana . Muito menos pra bonequinha ou pro tênis.
O bêbado, sem saúde ou cobertor, alí , qualquer cama.
Os poetas sem leitores, as putas de periferia, os drogados, os
alcoólatras, os psicóticos,
as crianças, todas...
Os animais sem pedigrí, os músicos da noite, os pequenos
burocratas,
as bichas feiosas, os camelôs, os bêbados de pinga, os pequenos sonhadores...
- Doutor, veja aí um remédio
bom pra calo, cárie, caspa e colesterol, pois, que
esta lágrima é o de menos importância !
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