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Meninas?... a gente só começava
a reparar que elas existiam: a Miriam, a Denise, Angela, Ilze,
Angelina...
Mas foi por causa da Dorinha, a mais
velha delas - uns 12 anos- que um garoto passou a frequentar
nossa turma: o Dagmar morava lá em cima, quase no final da rua
e devia ter a mesma idade da Dora.
Nos intervalos
das façanhas do National Kid, os reclames na TV tentavam
vender os drops Dulcora, aquele que era embrulhado um a um.
Era um tablete de drops que usava o slogan:
Drops Dulcora a
delícia que o paladar adora! Não demorou para que um de nós
democratizasse a idéia: Dulcora, a delícia que o Dagmar a
Dora.
A gozação não
abalou o Dagmar. Ele parecia mesmo apaixonado. Mas, tímido,
não conseguia se declarar à Dorinha.
Paulinho, apesar
do diminutivo, era o mais alto de nós. Magro e meio
despachado, Seu pai era feirante. Vendia balas, doces
biscoitos. Vez por outra, quando os sacões de biscoito
de polvilho estavam no fim, o pai do Paulinho deixava ele
trazer as sobras para a turma.
Era apenas o
farelo dos biscoitos mas... e a farra?: o desafio era fazer
alguém encher a boca com o farelo e dizer: minha mãe é rica
porque pode. Invariavelmente o p de pode acabava
virando ph, ou...f, pra se mais moderno.
Não sei se há
explicação científica, mas tenho provas empíricas
suficientes de que, depois de comer tanto farelo de
polvilho, acabávamos todos, por assim dizer, virando um
bando de balões de gás.
Acho que foi daí
que tiveram a idéia do concurso de puns.
Sábado, final de
tarde. Minha tia Inês já tinha voltado da permanente na
cabeleireira. Tio Zé Carlos engraxava seu mais novo par de
botas. No baile iria rolar Ray Conniff para dançar de rosto
colado e Chubby Checker, pra esquentar as cadeiras.
Nós, no entanto, estávamos preocupados com outras emoções:
hoje, o Dagmar iria se declarar à Dorinha.
Ficamos todos
atrás do caminhão que o Seu Mário deixava estacionado na
frente de sua casa.
Do outro lado da
rua ( em frente à casa da Dona Aracy), o Dagmar: cabelo com
corte americano curto máquina 1, calça nova com barra,
camisa branca e pulover azul marinho.
- Olha lá, a
Dorinha vem vindo!
Ela morava na
pracinha. Dava pra ler os lábios do Dagmar tentando
relembrar o que ele devia ter ensaiado nos últimos quinze
dias: você tem namorado; qual a sua religião (coisas de
nossa educação no colégio das Irmãs); você quer namorar
comigo?!
A Dorinha se
aproximou. Mal o Dagmar pôs as mãos nos bolsos,
mostrando que iria começar a sua declaração e... uma
explosão familiar ecoou pela silenciosa Bom Sucesso.
- O que foi
isso?! gritou assustada a Dorinha.
Nada não! Era o
Paulinho que acabava de vencer o concurso....
***
Paulinho,querido
amigo que não sei por onde anda, lembra-se daquela pedrinha
que enterramos em algum lugar da pracinha e que simbolizaria
nossa grande amizade na infância? Ela está plantada em algum
lugar dos nossos corações como que para lembrar a gente do
quanto nossa ingenuidade foi feliz
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