8 de abril de 2017

O dia em que meu pai assassinou Dick

Quando cheguei, diretamente da Maternidade do Brás, onde trouxeram-me "à luz",
esperava-me  em casa um serzinho dois ou três meses mais idoso que eu... um
pretinho que, embora pequenino, já sabia latir muito bem: seu nome Dick.

- Outro dia, mostrando uma foto antiga ao lado do Dick, um garoto me falou:
Antigamente vocês tinham cada mania... imagine,  dar nome do órgão sexual
masculino a um cachorro(?)...
Muito provavelmente dar esse nome aos cãezinhos tinha a ver com o significado
original  da palavra em inglês: colega, companheiro. Mas isso é outra história.
Meu pai, que foi quem trouxe Dick para casa, certamente nada sabia de inglês e
o uso desse nome para cães deveria ser comum naqueles tempos...Bem, era Dick e
pronto -

Assim como eu, Dick foi criado solto em um quintal grande e comprido que
seguia ao lado da casa dos meus avós até o fundo. Local onde ficava uma pequena
cobertura que protegia 2 tanques de lavar roupa e um "banheirinho", que mais
tarde,  aprendi, deveria ser chamado de W.C. (que bicho é esse?).
No fundo de tudo, a edícula que tomava extensão igual a toda a frente da casa. Foi ali que
vivemos durante meus primeiros 12 anos de vida, eu, pai, mãe e irmão.
Dick sempre teve sua cantinho próprio. Uma casinha de madeira que ficava debaixo do
”coarador”  feito com telhas de zinco.

Para mim ela era apenas mais um dos familiares. O fato de já estar lá quando eu cheguei,
não permitiu que eu o visse como um cão (ou pet, como gostam de dizer hoje em
dia)
*
(banheirinho virou WC... cachorro virou Pet.. pinto virou Dick... ah essa
evolução da Língua Portuguesa)
*
Meu Pai, Dick e eu, recêm chegado

Dick, meus tios Zé Carlos e Inez, vó e vô, meus pais e irmão,  que veio dois
anos depois de mim,  éramos os moradores da casa.
Acho que não havia distinção entre nenhum de nós.
Exceto pelo angu que minha avó preparava com osso enorme trazido do açougue e
com o qual Dick se lambuzava durantes suas refeições. Aquela comida amarelinha
tinha um cheiro muito bom. Nunca me explicaram porque não me davam para
experimentar.. Enfim, com o tempo meu desejo de angu foi passando.

Certamente Dick ganhou a rua bem antes que nós.
- Era um "rueiro" - ainda ouço minha vó Maria dizendo isso.


Como todos da casa,  não me lembro de nos termos visto em situações de
 intimidade. Éramos muito recatados. Sequer me lembro de alguma vez de ter
visto o Dick fazer xixi ou cocô.
Hoje, imagino que, mui educadamente, Dick deveria fazer suas necessidades em
suas saidinhas estratégicas,  naquelas horas em que não se via nem sinal dele em
nosso trecho de rua. Aqueles seus sumiços me deixaram aflito em várias
ocasiões. Mas ele nunca deixou de voltar pra casa...

Mas teve um dia que Dick foi e não voltou !

Como você já deve saber, Dick era mais idoso que eu. Como eu já havia chegado aos meus 11 anos e alguns meses de idade, acredito que ele já havia completado seus 12. Não teve nenhuma festa de aniversário. Alías, naqueles tempos, não me lembro de festas nem no meu próprio "birthday".

E passaram a aparecer os problemas da idade avançada. Talvez o tenha visto menos ativo, deitado no jardim. Sei que papai estava lhe dando remédio. Aliás, foi  meu pai que sempre cuidou dele. Os banhos que meu velho dava nele eram muito divertidos. Eu adorava vê-lo escapando das mãos de seu lavador oficial para ficar se cachoalando e espirrando água pra todo lado.

Até então, eu nunca tinha visto a morte de um familiar. E foi por volta dos seus doze anos que o perdemos.

Eu não sei onde eu aprendi. Naqueles tempos não havia novelas e o máximo que víamos na TV do vizinho ou da casa da tia Antonia, eram desenhos animados e, quando muito, Roy Rogers ou National Kid.
Mas a verdade é que, ao ser informado da morte do meu velho amigo - confesso meio envergonhado- fui responsável por uma cena tragicômica na qual, sai em disparada para os fundos da casa, apontando para meu pai e gritando:
- Você matou ele .... Foi você que matou ele!

Ó dó. Justo meu velho, que por toda a vida amou esses pequenos companheiros...

Anos mais tarde, ao relembrar daquela triste interpretação teatral, percebi que minha canastrice jamais me levaria à carreira de ator.
A próxima cena muito real e sem interpretação, foi observar meu pai, cavando uma pequena cova no jardim da vó Maria...
A última casinha do nosso amado Dick

Aldo Della Monica

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