11 de novembro de 2015

O primeiro terremoto da minha vida

Cama boa aquela do apartamento da rua Morandé, centro de Santiago. Sono pesado para restaurar toda a caminhada do dia anterior. 
Sim ! Quer conhecer Santiago ? Vá de Metrõ e à pé. De carro é absolutamente impossível. Aquilo não anda. E a pé, você vai observando tudo melhor.
Um sem número de jovens casais empurrando seus bebês bochechudos e felizes em seus carrinhos. Incrível, nas carinhas felizes dos bebês e de seus pais dá pra sentir esperança de um futuro estável e tranquilo.
Andando, também dá pra ver muitos cães. É....cachorros, perros, ... em sua maioria com cara de pastor alemão, donos das ruas, deitam e dormem em qualquer lugar com aquela aparência de saciados e de que jamais serão incomodados em seu sono preguiçoso. Até no Palácio de la Moneda, a presidenta permite que eles fiquem lá, dormindo e sendo bem tratados pelos Carabineros de Chile. Não vi nenhum cão magro ou maltratado.... e a maioria deles é sem-teto. Ou melhor, com o teto de um País que os respeita.
As pessoas.
Por muitas vezes, enquanto olhávamos o mapa para confirmar onde estávamos, algum chileno se aproximava para nos perguntar se precisávamos de ajuda. Com sorriso nos lábios, esforçavam-se para entender nosso precário portunhol e, todos, nos ajudaram em nossas buscas.

Não vi nenhuma... NENHUMA... criança pobre nas ruas... nem nos semáforos...nem nas praças...E olha que andamos (a pé) por todo o centro e em vários bairros. Nenhuma criança ou adolescente abandonado. Presenciamos apenas algum "ceguinho" chacoalhando sua latinha na esperança de alguma moeda caridosa. Crianças e jovens, só em grupos,
voltando da escola, visitando museus, brincando nas praças... inúmeras praças, todas lindas e muito bem cuidadas.
Visão da varanda do32.o Andar da Rua Morandé, 625, Santiago, Chile
... Mas como eu dizia, nosso sono reparador estava uma delícia.
De repente um sonho veio pertubar a deliciosa dormida: agora eu estava tendo convulsões, e mexia as pernas e os braços loucamente fazendo com que o colchão tremesse. Com um pesadelo desses, claro !, tinha que acordar assustado.
Mas o pesadelo apenas começara. Levantei-me para constatar que não era só o colchão que tremia.... O apartamento daquele 32. andar tremia inteiro. Parecia um barquinho à deriva em um tsunami no Oceano Pacífico. Os lustres transformaram-se em pêndulos histéricos... só sentando no chão para diminuir um pouco o efeito daquilo tudo.
Assim que minhas convulsões, ops, os tremores diminuiram um pouco, corri ao interfone para "preguntar" ao "porteiro amigo" o que estava acontecendo:
- Tranquilas ! Es sólo un temblor !
Tremor? O porteiro estava chamando aquele terremoto 19.2 na escala Ritcher de tremor ?!
... Nada disso: vestimo-nos rapidamente e descemos para o térreo (coisa que jamais se deve fazer pelo elevador em situações de perigo extremo como esse... mas como enfrentar a descida de 32 andares... ? Não daria tempo de chegar ao térreo antes de o prédio todo desabar)
Ufa, agora estavamos em solo firme. Quer dizer, não tão firme...ainda continuavam as tremidinhas. Sentamo-nos no hall do edifício à espera de um sinal que mostrasse que deveríamos evacuar - (entendam bem...no sentido de evacuar do prédio - àquela altura "nosotros" já estávamos evacuando de medo).
Não havia mais ninguém no hall além de nós e do porteiro noturno. Parece que ninguém no edifício havia se dado conta do perigo mortal que todos corríamos com aquele terremoto.
Atento às nossas caras de pavor diante do terrível abalo sísmico que estávamos presenciando. O porteiro aproximou-se cantando:
"Quiero llevar este canto amigo
A quien lo pudiera necesitar.
Yo quiero tener un
millón de amigos
E así más fuerte poder cantar" - e completou com a palavra mágica
e aproximadora: "Roberto Carlos".
O Sr. Diego queria nos deixar tranquilos, mostrando saber que éramos brasileiros e exibindo que era fã do Brasil:
- Estes tremores acontecem quase todos os dias aqui no Chile. Vocês não precisam se preocupar. Além disso, os prédios daqui são todos construídos com estrutura que permite absorver os impactos de um terremoto. Mas isto aqui é apenas um tremorzinho, "tranquilas !" (calma!).
Bem, ao observar que só nós havíamos descido para fugir do "terrível" terremoto e ao ver a cara boa e feliz do Seo Diego, resolvemos voltar ao apartamento para retomar nosso sono, àquelas 3:40 da matina.
Antes, sin embargo, tivemos que dar atenção ao Seo Diego ainda uma vez mais:
"Carlos Alberto Torres, Félix, Piazza, Brito, Clodoaldo, Everaldo, Jairzinho,
Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino"
Sem pestanejar o amigo porteiro recitou todos os nomes da seleção brasileira que venceu a copa de 1970 e ainda afirmou em alto e bom som: Pelé é o maior jogador do mundo de todos os tempos... e com o dedão virado pra baixo completou: Maradona, ó !
Enfim, voltamos ao 32.andar absolutamente convencidos de que não seria desta vez que morreríamos vítimas de um terremoto e, principalmente, de que estávamos entre amigos... nossos irmãos latino-americanos de Chile.

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